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Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

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publicado às 21:26

Valores humanos fundamentais: a bondade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.12

É a segunda vez que It's a Wonderful Life é colocado aqui a navegar, e talvez seja o filme mais visto nesta época de boa vontade. Em vez de bondade, poderia ter escolhido o valor respeito pelo próximo, ou mesmo empatia, colocar-se no lugar do outro, ou até mesmo maturidade. Mas aqui o nosso herói vai mais longe, coloca os outros à sua frente, um dia será a sua vez. Porque a vida lhe vai mostrando que há sempre alguém que precisa de ser salvo, apoiado, valorizado. Talvez porque só ele, a sua consciência de uma maturidade precoce, consiga ver o que os outros não vêem. É como se o seu papel na comunidade fosse maior do que um projecto individual: uma boa profissão, uma casa confortável, uma família. É o que a maior parte dos jovens sonha para si. Perfeitamente compreensível.

 

Não será assim para George Bailey. Vai adiar o curso e as viagens pelo irmão mais novo, aquele que num dia da infância salvara de morrer afogado. E vai adiar novamente esse sonho porque terá de ser ele a continuar o projecto do pai: um banco local de pequenos empréstimos, sempre no limite da sua capacidade mas uma base fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. O papel de George Bailey tornou-se, pois, mais abrangente, maior do que ele próprio.

 

 

Em muitos aspectos fundamentais da vida, este filme é muito actual. As interacções humanas estão a descaracterizar-se e as bases de coesão social estão a perder-se. É esse o mundo de Potter, o homem mais rico da comunidade que coloca o lucro e o poder acima de todas as dimensões da vida. Hoje o mundo pertence cada vez mais aos Potter, disso não há dúvida nenhuma. E não é apenas o lucro e o poder que habitam os olhos manhosos desse homem, é o ódio e o desprezo pelos mais fracos e desamparados. Será ele a dizer ao nosso herói que nada vale, está falido, o seu sonho morreu, que valia mais morto do que vivo.

E é precisamente este o pedido desesperado de George Bailey: mais valia não ter nascido. Desta vez será um anjo a resposta ao seu desespero. E a neve para de cair, ele deixa de existir, e será o anjo a acompanhá-lo nessa outra dimensão em que ele não existe.

E é nessa diferença entre o mundo onde ele não existe e o mundo que ele habitou, que percebe que a sua vida teve um sentido, uma influência benéfica: as vidas que tocou e influenciou, de forma vital, determinante. Tudo tinha valido a pena, as decepções, as contrariedades, os obstáculos, as dificuldades. Tinha prevalecido a bondade, muito mais forte do que todos os Potter deste mundo.

 

Reparem sobretudo na diferença entre esses dois mundos: o mundo dominado pelos Potter e o mundo estruturado pela bondade.

É esta a mensagem que hoje retiro deste Capra, e de novo com James Stewart. Capra é o realizador que mais percebeu e interiorizou a época natalícia, a época dos homens de boa vontade.

Todas as cenas têm um significado muito forte. As minhas preferidas são as que se referem ao projecto de George Bailey, o Bailey Park, as habitações confortáveis a baixo custo, permitir a cada um uma vida digna.

 

 

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publicado às 20:13

Valores humanos fundamentais: a responsabilidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.12.12

Ligada à liberdade, vem a responsabilidade. Não há liberdade sem responsabilidade e as duas juntas são dois pilares da autonomia, assim como outros valores fundamentais, verdade, empatia, fraternidade, lealdade, que virão a seguir.

A responsabilidade de cada um por si próprio, pelo seu percurso, pela sua atitude, pela sua acção e interacção no mundo, a começar pelo mais próximo, a família, os amigos, o trabalho, a comunidade, o país.

 

A responsabilidade liga muitíssimo bem com a época natalícia: o presépio que idealizamos tem os pais à volta de um menino, a protegê-lo, tem a rodeá-lo os mais simples, os pastores, e os mais respeitados, os Reis Magos, mesmo que as estalagens lhes tenham fechado as portas. No presépio que idealizamos está a vaca e o burro, porque na tradição rural os animais domésticos co-habitam com os campesinos, para os aquecer (ver os contos de Miguel Torga).

 

Para pegar na responsabilidade, fui buscar um Robert Wise que já aqui referi, Execute Suite, a propósito do actor Fredric March, aqui na pele de um executivo ambicioso. Mas é a personagem de William Holden que destaco aqui hoje: a liderança responsável.

Já aqui trouxe William Holden várias vezes, e numa delas até prometi que seria o meu próximo herói, na série Os meus heróis, na qualidade do homem em quem se confia. Esta personagem, McDonald Walling, podia muito bem representar essa qualidade.

William Holden, na pele de um executivo que defende, não apenas os lucros dos accionistas, mas o prestígio da empresa, a qualidade do serviço prestado aos clientes, a sua confiança, porque é aí que está a preparação do futuro, a sua continuidade. O que propõe nesta reunião decisiva em que se irá nomear o novo director, é precisamente manter a vitalidade da empresa, uma empresa viva.

 

O importante a reter neste filme é que quanto mais elevada é a posição que alguém ocupa, quanto maior o seu poder e influência e o impacto das suas decisões, maior a responsabilidade. 

É isso que desejamos também neste Natal: que os responsáveis pelas vidas de muitos outros reflictam na sua enorme responsabilidade de defender o prestígio das suas organizações e instituições, porque o prestígio e a confiança são os pilares do funcinamento equilibrado e saudável de uma comunidade.

Aqui William Holden lembra que o sucesso e futuro da empresa depende da confiança dos clientes e do trabalho conjunto de todos os que nela trabalham. Só mobilizando todos os elementos se mantém a vitalidade de uma organização e se constrói o futuro. 

 

 

 

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publicado às 09:30

Valores humanos fundamentais: a liberdade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.12

Volto a este rio num dia de nevoeiro, real e metafórico. Sei falar de nevoeiros, conheço-os, já me vi metida na sua densidade perturbadora. Quem nasceu neste país e teve de interagir com a cultura do nevoeiro e com os que a abraçaram para daí ter vantagens, poder e visibilidade, mesmo atropelando tudo e todos, sabe até que ponto é difícil defender um valor fundamental, a liberdade de viver e trabalhar sem obstáculos.

Este rio vai dedicar-se a este valor e a outros, como a justiça e o equilíbrio entre direitos e deveres, como uma pessoa simples enfrenta as injustiças, como a verdade acaba por prevalecer, ou como os nevoeiros deste mundo se vão aclarar finalmente à vista de todos.

 

Para navegar esta corrente do rio dos valores humanos fundamentais, e esta é a época certa para falar deles, trago de novo Mr. Smith Goes to Washington.

Aqui vemos um único homem a enfrentar poderosos oponentes. Do seu lado tem apenas um ideal maior do que si próprio, alguns amigos leais, uma secretária experiente que sabe tudo o que há a saber sobre os obstáculos que vai enfrentar.

Aqui também vemos como funciona a linguagem do poder, o tal nevoeiro que persiste.

E finalmente vemos como a verdade e a justiça prevalecem, como tudo se aclara no fim, ainda que à custa de muita dedicação e persistência.

 

 

Mr. Smith Goes to Washington é um Frank Capra, não esquecer. Já navegam neste rio quatro Capras pelo menos, e todos dos anos 30. Frank Capra liga muito bem com o Natal e com os valores humanos fundamentais.

 

 

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publicado às 19:23


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